Quando a empatia tem fronteiras
- Bárbara Osório

- 24 de fev.
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por Bárbara Osório, 27 de fevereiro de 2026
Há guerras que entram nas nossas casas com nomes próprios, rostos e histórias; e há outras que chegam reduzidas a números, siglas e mapas abstratos. A diferença raramente é inocente. No papel, o Direito Internacional Humanitário (DIH) foi pensado como um mínimo ético universal: um conjunto de regras que se aplica a todos os conflitos, independentemente de quem dispara, de que lado está “o bem” ou de quão distante é o campo de batalha. Na prática, porém, vemos um direito cada vez mais frágil, seletivamente invocado e desigualmente aplicado – e é precisamente aqui que a forma como olhamos para as vítimas se torna decisiva.
Nos últimos anos, o DIH tem sido posto à prova em cenários muito diferentes: da invasão da Ucrânia aos bombardeamentos repetidos em Gaza, passando por conflitos menos mediatizados no Sudão, no Iémen ou no Congo. Repete-se um padrão inquietante: ataques a civis tratados como “danos colaterais inevitáveis”, infraestruturas essenciais destruídas sob justificações vagas de “necessidade militar”, bloqueios que cortam água, comida e medicamentos a populações inteiras. Em teoria, o DIH é claro quanto à obrigação de distinguir entre combatentes e civis, respeitar a proporcionalidade e garantir o acesso da ajuda humanitária. Proíbe punições coletivas e o uso da fome como método de guerra. O problema não está na letra, mas no modo como a exceção se banaliza até transformar a regra em mera referência retórica.
É aqui que a forma como vemos as vítimas – e como a comunicação social as apresenta – deixa de ser detalhe e passa a ser mecanismo de poder. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, a reação pública em grande parte da Europa foi imediata: multidões nas ruas, bandeiras nas janelas, campanhas de acolhimento, abertura quase automática das fronteiras. Muitos refugiados ucranianos foram apresentados como “semelhantes a nós”, pessoas de classe média, “europeias”, com profissões qualificadas, cujas rotinas espelhavam as nossas. As suas casas bombardeadas apareceram em direto, as suas histórias foram contadas com detalhe, os seus nomes e sonhos tornaram-se familiares.
Contrastemos isso com a forma recorrente de mostrar refugiados sírios, palestinianos, afegãos ou sudaneses. Em vez de rostos individuais, massas indistintas em barcos sobrelotados ou filas intermináveis em campos superpovoados. Em vez de biografias, rótulos: “fluxos migratórios”, “crise de refugiados”, “ondas de deslocados”. Quando não são apresentados como ameaça, surgem como um problema humanitário abstrato, geograficamente distante e emocionalmente amortecido. Esta diferença de enquadramento não se limita à empatia; ela condiciona a margem de manobra política para tolerar ou denunciar violações do DIH.
Se um míssil atinge um hospital em território europeu, a linguagem é dura e inequívoca: crime de guerra, violação flagrante das convenções, exigência de responsabilização. Quando a destruição atinge repetidamente hospitais, escolas ou campos de refugiados no Médio Oriente ou em África, a reação institucional tende a ser mais hesitante, envolta em fórmulas como “preocupação”, “necessidade de investigar” ou “complexidade do contexto”. A mesma norma – proibição de ataques indiscriminados, proteção de instalações médicas, salvaguarda de corredores humanitários – parece pesar de forma diferente consoante a geografia, o aliado em causa e a perceção pública da vítima. Não é apenas um duplo padrão moral: é um duplo padrão jurídico travestido de prudência diplomática.
Este desfasamento corrói o DIH por dentro. Não apenas porque certas violações ficam impunes, mas porque a mensagem enviada ao mundo é a de que as leis da guerra são mais rígidas quando quem sofre se parece connosco, e mais flexíveis quando os corpos estão longe, têm outra cor de pele ou outra religião. Um dos pilares do DIH é precisamente a sua pretensão de universalidade: a proteção não depende da “inocência” política da vítima nem da legitimidade da causa do agressor, mas do simples facto de se tratar de seres humanos em situação de vulnerabilidade. Se começamos a admitir, de forma tácita, que algumas vidas contam mais do que outras, então o próprio alicerce deste direito começa a rachar.
Para uma geração hiperconectada, esta não é apenas uma questão de consciência, mas de coerência política. Temos acesso direto a relatórios de organizações humanitárias, a imagens e testemunhos em tempo real. Já não podemos fingir que não sabemos. Mas somos também produto de um ecossistema mediático que hierarquiza a dor e nos habitua à ideia de que há guerras centrais e guerras periféricas, refugiados “verdadeiros” e refugiados “problemáticos”. Resistir a essa hierarquia é um gesto político: significa recusar que o DIH seja um argumento apenas quando a vítima é europeia, e insistir que as mesmas regras se apliquem de Kiev a Gaza, de Cartum a Mariupol.
No fundo, a pergunta que se coloca à nossa geração é brutal na sua simplicidade: queremos um direito que protege apenas aqueles com quem nos identificamos, ou um direito que nos obriga a reconhecer humanidade onde nos ensinaram a ver ameaça? Talvez valha a pena lembrar as palavras de Kofi Annan, antigo Secretário Geral da ONU: “Se a humanidade falha em proteger os mais vulneráveis, então falha em proteger a si própria.” A forma como olhamos para quem foge das bombas – na Ucrânia ou em Rafah – dirá se levamos esta mensagem a sério, ou se preferimos continuar a viver confortavelmente dentro das fronteiras da nossa empatia.




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